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Malária: Novos compostos abrem caminho para medicamentos contra formas resistentes da doença

Malária: Novos compostos abrem caminho para medicamentos contra formas resistentes da doença

Escrito por  Set 09, 2026

Estudo envolvendo pesquisadores do Brasil e do exterior testou 18 novas moléculas e identificou candidato capaz de eliminar o parasita da malária em experimentos de laboratório e proteger animais infectados

 

SÃO CARLOS/SP - A busca por novos medicamentos contra a malária ganhou candidatos promissores. Um estudo publicado em maio deste ano na revista ACS Infectious Diseases avaliou 18 novas moléculas derivadas de substâncias já conhecidas por sua ação contra a doença. Alguns dos compostos conseguiram combater, inclusive, formas do parasita resistentes a medicamentos e apresentaram resultados positivos em amostras provenientes da Amazônia brasileira e em testes com animais.

A pesquisa, apoiada pela FAPESP, CNPq e CAPES, e liderada pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Dr.  Rafael Victorio Carvalho Guido e por Sean Ekins (Collaborations Pharmaceuticals, Inc. - USA), autores correspondentes do artigo científico publicado sobre o tema na revista acima mencionada, procura responder a um dos principais desafios atuais no controle da malária: a capacidade do parasita de desenvolver resistência aos medicamentos disponíveis. Segundo o artigo, foram estimados mais de 282 milhões de casos da doença e 610 mil mortes em 2024. Embora mosquiteiros tratados com inseticidas, medicamentos e vacinas tenham ampliado as possibilidades de prevenção e tratamento, a resistência aos remédios continua sendo uma ameaça.

Os pesquisadores partiram de estruturas químicas presentes em medicamentos já utilizados ou estudados contra a malária, como a pironaridina e a quinacrina. A estratégia foi modificar essas estruturas para encontrar moléculas que fossem mais eficientes contra o parasita e, ao mesmo tempo, apresentassem menor potencial de causar danos às células humanas. Dos 18 compostos produzidos, vários apresentaram forte atividade contra o Plasmodium falciparum, responsável pelas formas mais graves da malária.

Um dos destaques foi a molécula identificada no estudo como 2d. Nos experimentos, ela mostrou ação rápida contra o parasita e também foi eficaz contra amostras de Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax coletadas de pacientes na região de Porto Velho, em Rondônia, uma região endêmica para malária no Brasil. Os resultados obtidos com essas amostras foram semelhantes aos observados anteriormente em parasitas mantidos em laboratório.

Os pesquisadores também procuraram descobrir como essa molécula consegue matar o parasita. As evidências indicam que o composto 2d se concentra próximo de uma estrutura utilizada pelo Plasmodium para processar componentes do sangue humano.

Nesse processo, o parasita precisa neutralizar uma substância que, se permanecer livre, torna-se tóxica para ele. O novo composto parece impedir essa neutralização, fazendo com que material tóxico se acumule e prejudique o próprio parasita.

Outra molécula, denominada 5a, apresentou um comportamento diferente. Em vez de agir rapidamente, ela interfere no sistema utilizado pelo parasita para produzir a energia necessária à sua sobrevivência. Os resultados indicam que sua ação ocorre de maneira semelhante à da atovaquona, medicamento já empregado contra a malária. Isso mostra que moléculas quimicamente relacionadas podem atacar o parasita por caminhos diferentes — característica importante para a criação de novas estratégias terapêuticas.

O estudo mostrou ainda que o composto 5a teve seu efeito reforçado quando combinado com proguanil, outro medicamento contra a malária. Para os autores, essa descoberta abre a possibilidade de investigar derivados dessa molécula como futuras alternativas para prevenção da doença. Entretanto, os testes também mostraram que o parasita conseguiu desenvolver resistência ao 5a em laboratório, indicando que ainda serão necessários novos estudos antes que uma molécula desse tipo possa avançar como candidata a medicamento.

Resultado chama atenção em animais

Um dos resultados mais expressivos ocorreu nos testes realizados com camundongos infectados pelo parasita da malária. O composto 2d conseguiu eliminar os parasitas detectáveis no sangue dos animais tratados, resultado comparável ao obtido com medicamentos utilizados como referência no experimento. A sobrevivência dos animais também foi semelhante à observada nos grupos que receberam esses tratamentos de comparação.

O artigo informa ainda que os animais tratados com 2d alcançaram 100% de sobrevivência após 30 dias, reforçando o potencial da molécula para continuar sendo investigada.

Outro aspecto considerado importante pelos pesquisadores foi a resistência. Nas tentativas realizadas em laboratório, eles não conseguiram produzir parasitas resistentes ao composto 2d, o que sugere uma menor facilidade para o desenvolvimento de resistência. O resultado, entretanto, não significa que isso jamais possa ocorrer e deverá ser confirmado em estudos posteriores. Já com o composto 5a foi possível selecionar parasitas resistentes.

Da bancada ao medicamento ainda há um longo caminho a percorrer

Apesar dos resultados animadores, os compostos estudados ainda não são medicamentos disponíveis para pacientes. A pesquisa representa uma etapa inicial do desenvolvimento de novos tratamentos. Os experimentos envolveram parasitas cultivados em laboratório, amostras obtidas em campo e modelos animais. Antes de uma eventual utilização em seres humanos, candidatos como o 2d precisarão passar por novas etapas para demonstrar segurança, eficácia e comportamento adequado no organismo.

O trabalho também avaliou características que ajudam a determinar se uma molécula tem condições de se transformar futuramente em medicamento. Para o composto 2d, por exemplo, foram observadas propriedades favoráveis em alguns testes, mas também aspectos que precisarão ser aprimorados durante o desenvolvimento.

A importância da pesquisa está justamente em ampliar o número de caminhos disponíveis para enfrentar um parasita que continuamente encontra maneiras de escapar dos medicamentos.

Ao identificar moléculas que atacam o Plasmodium de formas diferentes e que permanecem ativas contra algumas linhagens resistentes, os pesquisadores criam novos pontos de partida para o desenvolvimento de terapias.

Os autores concluem que os compostos mais promissores apresentaram atividade contra formas resistentes de P. falciparum, funcionaram contra amostras brasileiras de P. falciparum e P. vivax e produziram resultados positivos em animais. O conjunto das descobertas poderá orientar o desenvolvimento de uma nova geração de candidatos a medicamentos contra a malária.

Acesse o link para conferir o artigo científico relativo a esta pesquisa - https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/09/acsinfecdis.5c00682-guido.pdf

Redação

 Jornalista/Radialista

Website.: https://www.radiosanca.com.br/equipe/ivan-lucas
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