O tratamento do câncer vive uma nova fase impulsionada pela imunoterapia, área que estimula o próprio sistema imunológico a combater os tumores.
SÃO CARLOS/SP - Entre as tecnologias mais promissoras estão as terapias com células CAR-T e as chamadas nanovacinas contra o câncer, tema de uma ampla revisão científica publicada por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP).
Segundo o estudo, o câncer continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública no mundo. Em 2020, cerca de 18 milhões de pessoas receberam diagnóstico da doença e 10 milhões morreram em decorrência dela. A tendência é de crescimento nas próximas décadas.
CAR-T: células reprogramadas para atacar o tumor
A terapia CAR-T funciona a partir da coleta de células de defesa do próprio paciente, que são modificadas em laboratório para reconhecer e destruir células cancerosas. Depois de multiplicadas, essas células são reinfundidas no organismo.
O método já conta com sete terapias aprovadas pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA), principalmente para leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Em alguns casos, as taxas de remissão ultrapassam 80%.
Os pesquisadores destacam que a grande vantagem do CAR-T é sua capacidade de reconhecer tumores de forma direta e altamente específica. Além disso, a tecnologia vem sendo estudada também para doenças autoimunes e infecciosas.
Apesar dos resultados expressivos, a terapia ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão os efeitos colaterais potencialmente graves, como reações inflamatórias intensas e alterações neurológicas, além do alto custo do tratamento, que pode chegar a centenas de milhares de dólares por paciente.
Outro desafio é a dificuldade de atuação em tumores sólidos, como os de pulmão, mama e cérebro. Esses tumores criam um ambiente que dificulta a entrada e a ação das células CAR-T, além de apresentarem grande diversidade de antígenos, o que facilita o escape do câncer ao tratamento.
Nanovacinas: estimulando uma resposta ampla do sistema imune
As nanovacinas terapêuticas representam outra frente inovadora da imunoterapia. Diferentemente das vacinas tradicionais, usadas para prevenir doenças infecciosas, essas vacinas buscam ensinar o sistema imunológico a reconhecer e combater tumores já existentes.
A tecnologia utiliza nanopartículas para transportar antígenos tumorais e substâncias que ativam células de defesa, especialmente os linfócitos T. Esse sistema melhora a entrega dos componentes da vacina aos linfonodos, locais centrais da resposta imune.
Entre os formatos mais estudados estão as vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA), semelhantes às utilizadas durante a pandemia de Covid-19. Empresas como BioNTech e Moderna lideram pesquisas nessa área.
O estudo cita resultados animadores em pacientes com melanoma tratados com uma vacina personalizada de mRNA combinada ao medicamento pembrolizumabe. Houve redução significativa do risco de recorrência e de metástase em comparação ao uso isolado do medicamento.
As nanovacinas também têm a vantagem de estimular uma resposta imunológica mais ampla, envolvendo diferentes tipos de células de defesa e favorecendo a formação de memória imunológica de longa duração.
Comparação e possíveis combinações
Os autores da revisão ressaltam que CAR-T e nanovacinas não são tecnologias concorrentes, mas potencialmente complementares.
O CAR-T oferece uma ação rápida e extremamente específica, enquanto as nanovacinas conseguem atingir múltiplos antígenos tumorais e gerar respostas imunes mais diversificadas e duradouras.
A combinação das duas abordagens, juntamente com medicamentos que desbloqueiam o sistema imunológico, aparece como uma das estratégias mais promissoras para o futuro da oncologia.
O futuro da imunoterapia
A revisão aponta que o avanço dessas tecnologias depende de superar desafios como a redução de custos de produção; melhoria da segurança dos tratamentos; aumento da eficácia em tumores sólidos; desenvolvimento de respostas imunes mais duradouras; e aprimoramento da personalização terapêutica.
Para o Doutorando Gabriel de Camargo Zaccariotto, essas tecnologias são abordagens centrais no futuro do tratamento do câncer: “Há alguns anos, as células CAR-T vêm representando um marco na história da terapia contra o câncer, especialmente no tratamento das neoplasias hematológicas. Mais recentemente, essa abordagem também tem avançado no enfrentamento dos desafiadores tumores sólidos, com resultados clínicos extremamente encorajadores em tumores altamente agressivos, como o glioblastoma. Paralelamente, embora ainda não exista nenhum produto aprovado, as nanovacinas vêm apresentando avanços promissores em ensaios clínicos para diferentes tipos de câncer, incluindo melanoma, câncer de pulmão, câncer de pâncreas e câncer colorretal”.
Mesmo com as limitações atuais, os pesquisadores consideram que CAR-T e nanovacinas representam uma mudança de paradigma no tratamento do câncer e podem transformar a prática clínica nos próximos anos, sendo que, sobre este aspecto, o coordenador do Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia do Instituto de Física de São Carlos (GNano- IFSC/USP) e um dos autores do artigo publicado na revista científica internacional “Biotechnology Advances”, Prof. Dr. Valtencir Zucolotto, comenta que “Tanto CAR-T quanto Nanovacinas representam pilares das novas gerações de imunoterapias conta o câncer. Em ambos os casos, a combinação de Nano e Biotecnologia é crucial para assegurar precisão a nível celular, eficácia e redução de custos”.
Esta pesquisa teve o apoio da FAPESP e do CNPq
Confira no link o original deste estudo - https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/06/Review-Nano-CarT-full-zuco.pdf































