SÃO CARLOS/SP - Uma descoberta na área da biologia celular está lançando nova luz sobre a maneira como as células administram um dos nutrientes mais importantes para sua sobrevivência: a glutamina. Presente naturalmente no organismo e obtida também por meio da alimentação, ela é indispensável para a produção de energia, a renovação dos tecidos, o fortalecimento do sistema imunológico e a recuperação do organismo após lesões ou infecções. Também exerce um papel importante no crescimento de células cancerígenas.
Em uma revisão publicada na revista Biochemical Society Transactions, pesquisadores reuniram evidências de que algumas proteínas responsáveis por utilizar a glutamina conseguem mudar de comportamento quando a célula enfrenta situações de estresse, como escassez de nutrientes ou alterações no metabolismo.
Em vez de permanecerem dispersas, essas proteínas podem se agrupar e formar longas estruturas temporárias, semelhantes a pequenos filamentos. O que os pesquisadores descobriram foi que os filamentos reorganizam as mitocôndrias, como se representassem um ganho de função, protegendo-as de um fenômeno de reciclagem de organelas que as células lançam mão quando tem pouco nutrientes (mitofagia).
Os pesquisadores verificaram que esse comportamento não ocorre apenas em uma proteína específica. Diversas proteínas ligadas ao aproveitamento da glutamina apresentam capacidade semelhante, sugerindo que esse seja um mecanismo amplamente utilizado pelas células para manter o equilíbrio do organismo.
A descoberta pode trazer benefícios importantes para a saúde humana. Ao compreender melhor como as células regulam o uso da glutamina, os cientistas poderão desenvolver medicamentos capazes de atuar com maior precisão sobre esse processo.
Na área da oncologia, por exemplo, o conhecimento poderá contribuir para criar terapias que reduzam o fornecimento de glutamina às células tumorais, dificultando seu crescimento e sua multiplicação, ao mesmo tempo em que preservam o funcionamento das células saudáveis. Essa abordagem pode resultar em tratamentos mais eficazes e com menor risco de efeitos colaterais.
Os resultados também podem beneficiar pacientes com doenças inflamatórias, autoimunes e metabólicas. Como a glutamina participa da resposta imunológica e da recuperação dos tecidos, compreender seus mecanismos de controle poderá favorecer o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas para acelerar a cicatrização, melhorar a recuperação após cirurgias, fortalecer pacientes em tratamento intensivo e reduzir complicações decorrentes de doenças crônicas.
Outro campo que poderá ser beneficiado é o das doenças neurodegenerativas. Alterações no metabolismo celular estão associadas a enfermidades como Alzheimer, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA). Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas, entender como as células controlam esse nutriente poderá revelar novos alvos para tratamentos capazes de proteger os neurônios e retardar a progressão dessas doenças.
Os pesquisadores ressaltam que muitas perguntas ainda permanecem sem resposta. Em alguns casos, a formação dos filamentos parece reduzir a atividade das proteínas; em outros, pode protegê-las ou até favorecer seu funcionamento. Esclarecer essas diferenças será uma das próximas etapas da pesquisa.
Apesar de os resultados ainda pertencerem à pesquisa básica, eles representam um avanço importante na compreensão do funcionamento das células. A descoberta demonstra que elas não regulam seu metabolismo apenas por sinais químicos, mas também reorganizando fisicamente suas próprias proteínas para responder de forma rápida e eficiente às necessidades do organismo.
Se esse conhecimento for confirmado por novos estudos, poderá servir de base para uma nova geração de medicamentos voltados ao tratamento do câncer, de doenças metabólicas, inflamatórias e neurodegenerativas, beneficiando milhões de pessoas nas próximas décadas.
A revisão publicada na revista Biochemical Society Transactions tem como pesquisadora correspondente a Drª Sandra Martha Gomes Dias, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), com a participação do docente do IFSC/USP, Prof. Dr. André Luís Berteli Ambrosio.
Confira no link o original do estudo publicado































